
Na tarde desta sexta-feira, 26 de setembro de 2025, foi realizada a Assembleia Geral das Comunidades Remanescentes Quilombolas do Sapê do Norte, na Comunidade Quilombola Nova Vista, em São Mateus. O encontro reuniu lideranças locais, representantes da Comissão de Acompanhamento das ações de reparação e autoridades estaduais, entre elas o governador Renato Casagrande e o vice-governador Ricardo Ferraço, deputados e autoridades municipais. O objetivo era tratar das reivindicações das comunidades afetadas pelo rompimento da barragem de Mariana e das etapas atuais do processo de reparação.

Durante a abertura, o governador Casagrande reforçou o compromisso do Estado com a reparação ambiental e social no contexto do novo acordo do Rio Doce, destacando a relevância de contemplar comunidades tradicionais na execução dos programas. “O momento agora é da gente se abraçar, dizer da importância das comunidades, que elas possam manter essa unidade, manter suas tradições, e colocar o governo à disposição delas para articular com o governo do presidente Lula”, disse Casagrande.

O vice-governador Ricardo Ferraço manifestou solidariedade à causa quilombola e ressaltou a importância de o governo estadual atuar em articulação com as comunidades para assegurar que os recursos previstos atinjam populações vulnerabilizadas. “Nas negociações com a empresa deixamos claro que se os quilombolas não fossem incluídos na reparação não assinaríamos, não haveria acordo”, disse Ferraço.

Com grande número de participantes, um dos eixos principais da assembleia foi o balanço do trabalho da comissão que negocia com os governos e com a Samarco as medidas de reparação previstas no Novo Acordo do Rio Doce. A comissão tem atuado para garantir que programas de indenização, auxílios e ações coletivas contemplem especificamente povos e comunidades tradicionais, incluindo medidas socioeconômicas, reassentamentos quando necessários e recuperação de ecossistemas usados para subsistência. Essas ações passam a ser operacionalizadas sob a marca “Reparação da Bacia do Rio Doce”, no âmbito do acordo homologado em 2024.

Responsável pelos primeiros passos das comunidades quilombolas no processo de reparação, o hoje vereador Altiane Blandino Dos Santos, conhecido como Pipi do Paraíso, foi parabenizado pelos membros da comissão e pelas autoridades presentes. Emocionado, Pipi do Paraíso falou das dificuldades e falta de apoio. “Andei com uma moto velha e sem habilitação, visitando cada casa, cada morador. Muitos diziam, é um doido, não vai a lugar nenhum. Muitos não acreditavam, mas hoje estamos aqui, vencedores. Teremos o maior investimento da história dos quilombos e as comunidades do Sapê do Norte vai viver um novo tempo”, disse Pipi.

Para os membros da Comissão Quilombola do Sapê do Norte a reparação só será justa se superar o modelo de compensações pontuais. Uma das articuladoras para a organização da assembleia geral, em entrevista, a conselheira Sheila disse que as transformações na realidade das comunidades chegarão de modo impactante. “Mais do que a reparação em si, mais que qualquer tipo de auxílio, as medidas estruturantes que virão pro Sapê, não estão na história. Nos últimos 20, 30 anos a gente não viu o que vai acontecer agora. Temos duas assessorias técnicas que conseguimos garantir…, e os projetos que trazem medidas permanentes são o nosso objetivo, porque com eles a gente vai ter mais qualidade de vida. A comunidade sabe o que ela precisa”, disse Sheila.

A Comissão Quilombola do Sapê do Norte foi criada há mais de 19 anos para unir as comunidades quilombolas de Conceição da Barra e São Mateus na luta por direitos territoriais e justiça social. Organizada em Grupos de Trabalho (GTs) temáticos, como educação, saúde, mulher, cultura e terra, a comissão promove reuniões mensais, formações e mobilizações, como o Grito Quilombola e o Festival do Beiju. Articulada com a CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas) e outros movimentos sociais, a comissão busca garantir a sobrevivência e a autonomia das comunidades quilombolas.
Por Rubens Floriano.