O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, publicou uma carta aberta ao presidente Vladimir Putin na quinta-feira (4), na qual propôs que os dois líderes se encontrassem para negociar o fim de mais de quatro anos de guerra, alertando que Kiev estaria pronta para continuar lutando caso não houvesse acordo.

Na carta, que o escritório do presidente disse ter sido enviada a outros países, incluindo os Estados Unidos, Zelensky afirmou que a maioria dos russos já está cansada dos ataques ucranianos com mísseis e drones, da inflação e da escassez de combustíveis, e que estavam prontos para a paz.

Zelensky disse que, com os Estados Unidos focados no conflito no Irã, “seria errado simplesmente esperar até que a guerra na Europa volte a estar no centro de sua atenção.”

E o caminho para a paz, afirmou, precisa começar na linha de frente, “a linha de onde a diplomacia deve começar.” A Ucrânia defende “um cessar-fogo total durante as negociações. Isso é prática comum.”

Zelensky propôs definir uma data clara para um encontro e afirmou que diversos países “tradicionalmente receberam líderes para resolver questões de guerra e paz”, citando Suíça, Turquia e países do mundo árabe.

“Não tenha medo de trilhar o caminho para fora desta guerra. Isso é o principal que se exige de você agora”, escreveu Zelensky.

“A Ucrânia propõe encerrar esta guerra por meio de um diálogo direto entre nós — e você. Estou propondo um encontro… Se você não chegar pessoalmente à conclusão de que é hora de acabar com esta guerra, a Ucrânia continuará lutando por sua existência.”

E a continuação da guerra, sugeriu Zelensky, poderia ameaçar a posição pessoal de Putin.

Leia na íntegra a carta aberta de Zelensky para Putin

Carta aberta ao Presidente da Federação Russa, do Presidente da Ucrânia

Quando você chegou ao poder na Rússia há mais de 26 anos, muitas pessoas na Ucrânia tinham uma visão positiva de você. Era assim. Mas isso já é passado.

Agora, a esmagadora maioria dos ucranianos vê de forma positiva o fato de que nossos drones de longo alcance visitaram a abertura do seu fórum em São Petersburgo, percorrendo uma distância de mais de 1.000 quilômetros. Como você bem sabe, essa distância não é o limite das nossas capacidades.

Ao longo de 26 anos, seu tempo no poder mudou completamente a agenda das relações entre a Ucrânia e a Rússia. De discussões sobre comércio e outros assuntos civis, nossas nações passaram a falar quase exclusivamente sobre ataques e perdas.

Você passou quase metade dos seus 26 anos no poder na Rússia travando guerra contra a Ucrânia.

Independentemente do que você diga sobre a OTAN, geopolítica ou a língua russa, esta guerra é sua escolha pessoal — uma guerra sem causa real. É assim que a história irá se lembrar dela.

Esses anos poderiam ter sido muito diferentes.

Muitas vezes ouvimos que você está confortável com esta guerra. Claro, não quando se trata da segurança da sua residência em Valdai ou do seu desfile em Moscou. Sua própria vida é valiosa para você.

Mas agora todos podemos ver que os russos estão finalmente ficando menos confortáveis com essa realidade — com o fato de que a guerra está trazendo consequências cada vez mais negativas para a Rússia.

Eles não gostam dos nossos drones e mísseis.

Eles não gostam da escassez de gasolina e dos preços em constante alta.

Eles não gostam das restrições constantes.

Eles não gostam da sua intenção de lançar uma segunda onda de mobilização para expandir a guerra em outra direção na Ucrânia ou para usá-la contra outros países vizinhos da Rússia.

Eles não gostam do fato de que não há um fim à vista para a sua guerra.

Sim, você ainda pode obrigar os russos a viver dessa forma. Mas seus recursos estão diminuindo significativamente.

Você não terá dinheiro ou capital político suficientes para continuar comprando a lealdade dos russos como fez nos últimos 26 anos.

E nós faremos tudo o que pudermos para garantir que o mundo ajude a aproximar esse momento.

Como você mesmo gosta de dizer, “precisamos fazer as contas”.

Ontem, recebi um relatório sobre as perdas do seu exército na frente de batalha na Ucrânia durante o mês de maio. Mais uma vez, o número ultrapassou 30.000 soldados russos mortos e gravemente feridos. Mantemos esse nível mês após mês, e temos confirmação em vídeo de cada uma das suas perdas — não são alegações vazias.

Sabemos que 63% das suas perdas em combate são mortos, enquanto apenas 37% são feridos. No século XXI, nenhum exército pode arcar com uma proporção dessas. E a parcela de mortos continuará a crescer.

Não é como se nós, na Ucrânia, estivéssemos preocupados com o destino dos soldados russos depois de tudo o que a sua guerra trouxe ao nosso país.

Mas eu me importo com os ucranianos.

Estamos perdendo nosso povo, e cada perda é dolorosa para nós. Mesmo quando a proporção de perdas ucranianas em relação às russas é de um para cinco ou um para seis, isso ainda importa muito.

Também é relevante que você adie regularmente, a cada poucos meses, seus próprios prazos para capturar nossas regiões — especialmente a região de Donetsk. E você não a capturará este ano também.

Mas nós, na Ucrânia, não queremos uma guerra permanente. Sabemos muito bem que a vida sem guerra é infinitamente melhor. E queremos alcançar isso.

Estou convencido de que a maioria dos russos também responderia positivamente a isso — e você sabe disso.

Muitos não acreditavam que a Ucrânia seria capaz de resistir por tanto tempo. Você não acreditava. E aqueles que o aconselharam também não acreditavam. Isso foi um erro.

Você não esperava resistência em grande escala da Ucrânia, e não previu que as coisas chegariam a esse ponto. E ainda assim aqui estamos — no quinto ano desta guerra em grande escala.

Não tenha medo de trilhar o caminho para fora desta guerra. Isso é o principal que se exige de você agora.

A Ucrânia preservou sua independência. E continuará a preservá-la. Apesar de todas as previsões contrárias.

Unimos muitos ao redor do mundo para ficar com a Ucrânia e contra você. Conseguimos as armas e o financiamento de que precisávamos.

Recebemos apoio. Você recebe sanções. E isso continuará até que haja justiça para a Ucrânia — a justiça que buscamos e que pode ser alcançada.

Não permitiremos que aqueles que tentam convencê-lo de que as sanções contra a Rússia serão significativamente reduzidas, e que o apoio à Ucrânia será diminuído, sem qualquer mudança significativa em sua postura em relação à Ucrânia, tenham sucesso. O exemplo de Orban mostra como aqueles que escolhem ajudar a Rússia em sua guerra contra nós acabam em desgraça.

A Ucrânia suportou invernos rigorosos enquanto você tentava destruir nosso sistema de energia. Mantivemo-nos firmes — e mesmo na escuridão, a resiliência dos ucranianos permaneceu intacta.

Levamos a guerra para o seu território, e você não teria conseguido lidar com isso sem a ajuda da Coreia do Norte. Você é o primeiro governante da Rússia a recorrer a Pyongyang em busca de assistência.

E hoje você depende totalmente da China — também pela primeira vez na história da Rússia.

Você acreditava que os ucranianos não teriam forças para se defender. No entanto, hoje nosso povo ajuda nossos parceiros no Oriente Médio e no Golfo a construir suas próprias defesas.

Você esperava por agitação interna na Ucrânia. Em vez disso, foram suas próprias formações militares que se amotinaram contra você. O dia 23 de junho marcará mais um aniversário desse evento, e o silêncio não apagará esse fato da história.

E agora é a você que seus próprios oficiais, empresários e propagandistas olham com evidente cansaço. O mundo pode ver isso.

O mundo não se cansou da Ucrânia, como você há muito esperava. Mas há um cansaço crescente em relação à Rússia — mesmo entre aqueles no mundo mais amplo que ajudam você a contornar sanções e manter sua economia à tona.

Você não pode deixar de perceber isso. Depois de 26 anos no poder, a idade começa a cobrar seu preço. E com o tempo, o cansaço em relação a você só aumentará.

Temos visto relatórios de inteligência mostrando que você está considerando planos para continuar a guerra em 2027 e 2028. Também sabemos que você espera que mísseis balísticos consigam para você o que tudo o mais não conseguiu. Você quer envolver ainda mais Belarus nesta guerra, e agora somos obrigados a nos preparar para isso também. Vemos que você está tentando orquestrar algo em torno da Transnístria. Seus propagandistas ameaçam, de uma forma ou de outra, todos os países vizinhos da Rússia. Você realmente quer passar por tudo isso?

A escolha agora é sua.

Chega de guerra.

A Ucrânia propõe acabar com esta guerra.

Isso deve ser feito de forma honesta, com dignidade e com garantias de que a guerra não será reacendida.

Vemos que os Estados Unidos estão totalmente focados na questão do Irã, e seria errado simplesmente esperar até que a guerra na Europa volte a estar no centro de sua atenção.

A Ucrânia propõe encerrar esta guerra por meio de um diálogo direto entre nós — e você.

Estou propondo um encontro.

Todos ouviram seus representantes, sorrindo, dizer que eu supostamente poderia ir a Moscou. Mas depois desses 26 anos, não há nada que um líder ucraniano possa fazer em sua capital — assim como não há nada que um líder russo possa fazer em Kiev.

Há países que tradicionalmente recebem líderes para resolver questões de guerra e paz. Suíça, Turquia, países do mundo árabe — muitos estão aptos e dispostos a sediar tal reunião.

São os líderes que resolvem as questões principais. Sempre foi assim, e sempre será.

Proponho definir uma data clara para esse encontro.

Soubemos que você recebeu promessas no Alasca de resolução de certas questões envolvendo a Ucrânia e a Europa. Mas você pode ver por si mesmo que questões ucranianas e europeias não se decidem em Anchorage.

Outros participantes acordados poderiam se juntar à via bilateral a ser estabelecida entre nós.

Como a guerra ocorre na Europa, e como a Ucrânia precisa de garantias de segurança — enquanto você também busca garantias de segurança para si mesmo —, seria lógico envolver aqueles que podem genuinamente servir como garantidores.

Acreditamos que a Europa deve fazer parte desse processo — aqueles que realmente têm capacidade de influenciar a situação.

Também acreditamos que os Estados Unidos devem fazer parte do processo. Isso é o que poderia ajudar a moldar uma nova arquitetura de segurança para a nossa região do mundo.

Já vivemos muitos acordos com a Rússia, incluindo os Acordos de Minsk, que acabaram falhando. Por isso, precisamos, em primeiro lugar, encontrar respostas diretas entre nós para as questões que ainda permanecem, e não nos esconder de temas difíceis atrás de fórmulas, grupos técnicos de trabalho ou da perda interminável de tempo em diplomacia indireta.

Sua guerra separou de forma permanente a Ucrânia e a Rússia.

A linha de frente hoje é a linha a partir da qual a diplomacia deve começar.

A Ucrânia está pronta para um cessar-fogo total durante o período das negociações. Isso é prática padrão, e os acontecimentos atuais em torno do Irã apenas reforçam esse ponto. Uma tentativa de estabelecer silêncio real é a melhor forma de começar a conversar. Acreditamos que não seria apenas uma tentativa, mas um cessar-fogo real — se isso for o que você deseja.

Você sabe que os Estados Unidos têm capacidade de monitorar um cessar-fogo ao longo da linha onde as hostilidades cessarem.

A Ucrânia está pronta para uma troca total de todos os prisioneiros de guerra, e isso poderia se tornar um bom prólogo para o fim da guerra.

Medidas sérias devem ser tomadas para devolver civis e crianças que foram levados durante a guerra.

Precisamos determinar que tipo de futuro aguarda as gerações de ucranianos e russos que virão depois de nós.

Se você não chegar pessoalmente à conclusão de que é hora de acabar com esta guerra, a Ucrânia continuará lutando pela sua existência. Teremos aqueles que nos apoiam.

Mas você também terá de lutar muito mais pela sua própria existência — não pela da Rússia, mas pela sua própria. E isso não é uma ameaça minha nem da Ucrânia. É um fato da história russa que você conhece bem: quando a Rússia se cansa, mudanças acontecem.

Podemos trabalhar para que esse cansaço aconteça.

Você pode parar a sua guerra.

Memória eterna a todos aqueles cujas vidas foram ceifadas por esta guerra.

Glória à Ucrânia!