
Procedimento histórico em Barcelona envolveu 100 profissionais e devolveu a dignidade a uma paciente que perdeu o rosto após uma picada de inseto.
DA REDAÇÃO | CAPIXABA HOJE COM REUTERS
MADRI – Em um marco que une o ápice da medicina cirúrgica à complexidade dos debates éticos modernos, o Hospital Vall d’Hebron, em Barcelona, anunciou nesta segunda-feira (2) a realização do primeiro transplante facial do mundo cuja doadora foi uma paciente que optou pela morte assistida.
A receptora, identificada apenas como Carme, sofria de uma necrose severa nos tecidos do rosto provocada por uma infecção bacteriana após a picada de um inseto. Antes da cirurgia, Carme tinha dificuldades básicas para realizar funções vitais, como comer, enxergar e falar.
“Quando me olho no espelho em casa, sinto que estou começando a parecer mais comigo mesma”, declarou a paciente em coletiva de imprensa, visivelmente emocionada com o progresso de sua recuperação.
Logística e Ética A operação, realizada no outono europeu de 2025, mas mantida sob sigilo até agora, exigiu uma coordenação sem precedentes. Cerca de 100 profissionais, incluindo cirurgiões, imunologistas e psiquiatras, participaram do processo. A complexidade não foi apenas biológica — para o transplante ser viável, doadora e receptora precisavam ter compatibilidade de grupo sanguíneo, sexo e estrutura craniana —, mas também moral.
Elisabeth Navas, coordenadora de transplantes do hospital, destacou a maturidade da doadora, que decidiu transformar o fim de sua própria vida em uma oportunidade de recomeço para um estranho. “Alguém que decidiu encerrar sua vida dedica um de seus últimos desejos a um estranho e lhe dá uma segunda chance dessa magnitude”, afirmou.
Espanha na Vanguarda A Espanha consolidou-se como líder mundial em transplantes há mais de três décadas. O país legalizou a eutanásia em 2021, e a integração dessa prática com o sistema de doação de órgãos tem gerado números expressivos: em 2024, 426 pessoas receberam assistência para morrer no país, enquanto o sistema nacional de saúde realizou cerca de 6.300 transplantes de órgãos no último ano.
O hospital Vall d’Hebron reafirma sua posição na história da medicina, tendo sido o responsável pelo primeiro transplante facial completo do mundo em 2010.