Onda de calor brutal matou mais de 50 mil pessoas na Europa, indica análise
Conclusões apresentadas em dois artigos alertam que verão de 2026 foi “provavelmente o mais perigosamente quente" que o continente vivenciou até hoje
O calor extremo que atingiu a Europa no verão de 2026 pode ter provocado 50.391 mortes em 854 cidades de 30 países, segundo duas pesquisas revisadas por especialistas e publicadas na revista Nature Health. Desse total, mais de 32,6 mil óbitos são atribuídos diretamente às mudanças climáticas, impulsionadas principalmente pela poluição decorrente da queima de combustíveis fósseis.
Os resultados indicam que o período foi o mais letal relacionado ao calor nas cidades analisadas nas últimas décadas. A estimativa considera os meses de junho a agosto e supera os números associados a grandes ondas de calor anteriores, como as registradas em 2003 e 2022.
“Acredito que podemos afirmar, com bastante segurança, que o verão de 2026 provavelmente foi o pior já registrado em termos de mortalidade relacionada ao calor em grande parte da Europa”, afirmou Clair Barnes, pesquisadora do Imperial College London e uma das autoras dos estudos.
Mudanças climáticas agravam os efeitos do calor
Para calcular o número de mortes, os pesquisadores compararam as temperaturas registradas neste verão com aquelas que seriam esperadas em um cenário sem mudanças climáticas. A análise utilizou dados de 854 cidades, que concentram aproximadamente 40% da população dos países estudados.
Os cientistas também recorreram a pesquisas sobre a relação entre temperaturas elevadas e mortalidade diária para estimar os óbitos associados ao calor. Embora os números sejam calculados por modelos estatísticos, os autores afirmam que os resultados são compatíveis, de modo geral, com dados divulgados posteriormente por autoridades de saúde.
O sul e o oeste da Europa estiveram entre as regiões mais afetadas. Países do norte do continente, incluindo o Reino Unido, também registraram milhares de mortes relacionadas às altas temperaturas.
As pessoas com 85 anos ou mais apresentaram as maiores taxas de mortalidade. No entanto, os efeitos do calor também atingiram adultos mais jovens: mais de 800 mortes foram estimadas entre pessoas de 20 a 44 anos.
Verão de 2026 teve temperaturas acima da média
A Europa é o continente que aquece mais rapidamente, e as temperaturas registradas entre o fim de maio e agosto de 2026 foram excepcionalmente elevadas.
Na Europa Ocidental, o verão ficou aproximadamente 2,9 °C acima da média do período de 1991 a 2020. Em alguns dias e localidades, as temperaturas superaram em mais de 12 °C os valores habituais.
Segundo os pesquisadores, a contribuição das mudanças climáticas para as mortes relacionadas ao calor também aumentou ao longo das últimas décadas. No início deste século, a poluição proveniente de combustíveis fósseis estava associada a cerca de 40% desses óbitos. Atualmente, essa proporção chega a aproximadamente dois terços, de acordo com a análise.
Raquel Nunes, professora associada de saúde e meio ambiente da Universidade de Warwick, afirmou que os resultados reforçam as evidências sobre os riscos do calor extremo.
O médico Lasse Vestergaard, da Rede Europeia de Monitoramento da Mortalidade, ponderou que estimativas baseadas em modelos devem ser interpretadas com cautela, pois envolvem incertezas e suposições. Ainda assim, ele considerou que os resultados estão, em linhas gerais, alinhados com os dados observados durante o verão.
Pesquisadores alertam para riscos futuros
A divulgação dos estudos ocorre antes das negociações anuais das Nações Unidas (ONU) sobre o clima, previstas para a Turquia, em um momento de crescente preocupação com o aquecimento global.
Os pesquisadores alertam que a continuidade da dependência de combustíveis fósseis pode contribuir para verões ainda mais quentes e perigosos. O calor extremo é considerado um dos eventos climáticos mais letais, embora seus efeitos nem sempre sejam percebidos imediatamente.
Os resultados também reforçam a preocupação com os impactos sobre a saúde pública, especialmente entre idosos e pessoas vulneráveis. Os autores destacam que, por trás das estimativas, estão milhares de vidas perdidas e famílias afetadas pelas consequências das temperaturas extremas.
Por: CNN Brasil
