A estreia de “Rio de Clarice” nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (13) traz para a indústria audiovisual a sensibilidade e a força de um dos maiores e mais influentes nomes da literatura brasileira.
Com direção assinada por um time de cineastas, incluindo Nicole Allgranti, sobrinha-neta de Clarice Lispector (1920-1977), e Taciana Oliveira, o longa adapta cinco contos de diferentes fases da autora, unindo seus respectivos universos em uma produção plural e etérea.
Indo além de um mergulho autobiográfico, o projeto se propõe a entrelaçar as inquietações da escritora com brasilidade e experiência humana. À CNN Brasil, Nicole conta que a escolha de dividir a narrativa em cinco partes carrega um simbolismo próprio.
“Essa não é a primeira vez que o cinema brasileiro faz uma junção de cinco filmes em um. E é um número muito próspero, cinco é aquilo que está na palma da nossa mão. Trazer cinco diferentes histórias escritas em períodos diferentes da obra da Clarice, desde 1950, até o último conto que ela escreveu em vida, em 1977, mostra como todos são muito atuais”, comenta.

A geografia afetiva em “Rio de Clarice”
Ainda que a atmosfera carioca contemple a obra da autora, o longa ganhou um contorno singular ao ser rodado na região serrana do Rio de Janeiro. “No nosso filme, a cidade não é a personagem. O que é mais importante é a atriz fazendo aquela personagem, e isso poderia estar ambientado em qualquer cidade do Brasil ou do mundo”, diz Algranti.
“O Rio de Clarice, para mim, são os rios por onde passam as águas que contam as histórias, os afluentes, os igarapés. É uma brincadeira, inclusive com a numerologia”, acrescenta sobre a licença poética do título.
Cineasta pernambucana convidada por Nicole para compor a direção, Taciana destaca a transição geográfica da autora e a presença marcante do Rio de Janeiro em suas páginas.
“Clarice viveu a infância em Recife, e aí tem esse link para mim de ter essa geografia de Pernambuco na obra dela. Mas quando ela vem para o Rio, você tem uma série de contos em que a ambientação é até nos subúrbios cariocas. Essa geografia afetiva perpassa toda a obra de Clarice, não tem como fugir disso”, conta em entrevista.

O desafio em roteirizar a obra de Clarice Lispector
Adaptar Clarice para a linguagem audiovisual também exigiu sensibilidade para traduzir o pensamento “clariceno” em imagens sem perder a essência de cada uma de suas palavras. Nicole, que assina o roteiro ao lado da pesquisadora Teresa Monteiro, pontua a relação intrínseca do texto com o cinema.
“Eu gosto de falar que o texto da Clarice é muito cinematográfico. Quando pego para roteirizar, encontro ali todas as possibilidades de transformar aquelas palavras em imagem. O que eu mais acho bacana é respeitar os diálogos, porque os personagens têm sua própria voz”, detalha.
Taciana completa a visão sobre o processo criativo e o caráter colaborativo e atemporal da produção.
“Eu não sou uma estudiosa, vou muito pela intuição do que Clarice traz para mim e pelo extremo respeito à obra dela. A Clarice tem um olhar sobre a mulher e sobre o ser humano de uma forma distinta, temporal. É uma costura coletiva. A gente constrói com a equipe, com a atriz que te dá um suporte emocional e te linka ao produto final”, conta.
A pluralidade do elenco também foi um ponto crucial na construção da obra. Segundo Nicole, “a história da Clarice pode ser feita por qualquer etnia, pode ser representada por qualquer povo, é universal”.
Taciana reforça a urgência de democratizar esse acesso. “A literatura de Clarice não pode ser atraída a um determinado grupo social, ela é para todo mundo. Eu encontro leitores de Clarice na periferia de Fortaleza, no Amazonas, na Bahia. Essa universalidade que essa mulher consegue transpor deve ser festejada”, comemora.

A cura por meio das telas
Para quem nunca teve contato direto com a obra de Clarice ou para os leitores de longa data, as diretoras esperam que o filme funcione como um convite de descoberta e fortalecimento pessoal.
“Para quem nunca leu, eu acho que quem vai assistir vai ter vontade de ler Clarice, nem que seja para criticar. Torço para que assistam, façam sua própria leitura e se conectem consigo mesmas, porque Clarice tem esse poder de desconstruir a gente para depois a gente levantar mais forte”, reflete Taciana.
Nicole encerra com uma provocação sobre o impacto transformador do longa.
“As mulheres de Clarice passam por um processo de epifania, e para mim epifania é cura. O texto da Clarice fortalece o ser humano, e dá um despertar. Nesses tempos doidos que a gente tá vivendo, eu me sinto fortalecida quando leio aquelas mulheres. É isso que a gente espera levar ao público”, conclui.
“Rio de Clarice” conta com elenco estrelado por nomes como Luíza Cardoso, Lucélia Santos, Letícia Spiller e Guida Viana.
Por: CNN Brasil


