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Trump precisará da China para pressionar o Irã, mas apoio de Xi é incerto

A segunda maior economia do mundo há muito tempo é uma importante linha de sustentação econômica para Teerã
26/08/2026 10h07
Trump precisará da China para pressionar o Irã, mas apoio de Xi é incerto

Quando o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou a “Operação Pária Econômica” nesta semana, ameaçando impor novas sanções prejudiciais a países que se recusarem a deixar de fazer negócios com o Irã, ele não citou o único país que poderia decidir o sucesso ou o fracasso da operação: a China.

A segunda maior economia do mundo há muito tempo é uma importante linha de sustentação econômica para Teerã, comprando a grande maioria das exportações de petróleo do país — avaliadas em dezenas de bilhões de dólares no ano passado — além de outros produtos comercializados.

Conseguir o apoio de Pequim para o mais recente esforço da Casa Branca para subjugar uma liderança iraniana que permanece desafiadora após quase seis meses de guerra, no entanto, será uma tarefa extremamente difícil.

Pequim rejeita categoricamente o que chama de sanções americanas “unilaterais” e há muito tempo defende seu direito de manter relações comerciais regulares com parceiros como Irã e Rússia. O governo chinês também avalia que Washington hesitaria em provocar um confronto econômico mais amplo que prejudicaria os dois países, especialmente às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA.

Na terça-feira (25), após a entrevista coletiva de Bessent, o Ministério das Relações Exteriores da China prometeu “tomar todas as medidas necessárias” para proteger seus “próprios direitos e interesses legítimos” diante das ameaças de sanções dos EUA.

“Guerra econômica e pressão máxima não ajudarão a resolver a questão; elas apenas intensificarão ainda mais as tensões e os conflitos, criarão riscos de transbordamento e desorganizarão a ordem econômica e financeira global”, afirmou o porta-voz do ministério, Lin Jian.

A ameaça de Bessent também ocorre antes de uma aguardada visita do líder chinês Xi Jinping aos EUA no mês que vem, quando os dois lados poderão avançar na extensão de uma importante trégua comercial que deve expirar no fim do ano.

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou anteriormente que não pediu a Xi “nenhum favor” em relação ao Irã durante uma reunião entre os dois em maio — uma declaração que, se correta, provavelmente parecerá a Pequim um sinal de desespero americano para pôr fim ao conflito.

Agora, os dois países terão de fazer um cálculo cuidadoso sobre como lidar com o que Bessent disse que será um período de “diplomacia silenciosa” — ou seja, a emissão privada de ultimatos aos parceiros econômicos do Irã, que o secretário do Tesouro não identificou especificamente durante sua entrevista coletiva.

Analistas chineses apontam que há pouco espaço para as exigências de Washington. “É improvável que a China aceite uma situação em que Washington determine com quais países terceiros as empresas chinesas podem negociar legalmente”, disse Zhao Long, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos e de Segurança Internacional dos Institutos de Estudos Internacionais de Xangai.

“Isso estabeleceria um precedente segundo o qual as sanções secundárias dos EUA poderiam efetivamente determinar as relações comerciais da China com países terceiros.”

O que Washington poderia fazer

A China importa petróleo iraniano usando um sistema clandestino que, por projeto, é protegido do sistema do dólar americano — e das sanções.

Refinarias privadas, as chamadas “teapots”, compram e processam petróleo bruto iraniano sancionado pelos EUA, recorrendo a uma rede de portos, instituições financeiras e navios-tanque que também costumam estar protegidos da exposição internacional. A China não registra oficialmente essas compras há anos, desde que os EUA voltaram a impor sanções ao Irã, quando o primeiro governo Trump abandonou o acordo nuclear iraniano da era Obama.

Mas existem pontos de pressão, dizem analistas.

“Quando você olha para os proprietários dessas entidades no setor de exploração e produção, descobre que muitas são direta ou indiretamente controladas por grandes empresas estatais chinesas que estão profundamente integradas ao sistema do dólar americano”, disse Max Meizlish, analista sênior de pesquisa do think tank Fundação para a Defesa das Democracias, em Washington.

“Ao sancionar suas subsidiárias, os EUA podem pressionar as controladoras a se desfazerem dessas participações, sob o risco de serem consideradas como fornecedoras de apoio direto ou indireto a entidades sancionadas”, afirmou.

Bessent disse no início deste ano que Washington havia enviado advertências a dois bancos chineses não identificados sobre seu papel em transações relacionadas ao Irã. Questionado na segunda-feira, durante sua entrevista coletiva, sobre quais medidas os EUA adotariam contra bancos e empresas de transporte chineses que não cumprissem as exigências, ele afirmou que “ninguém está acima” de enfrentar sanções americanas.

Apesar do discurso duro, Pequim já viu os EUA ameaçarem — e depois recuarem — de sanções abrangentes. Também sabe que Washington está plenamente consciente da significativa influência econômica da China sobre os EUA, especialmente por causa do controle chinês sobre o fornecimento global de terras raras estrategicamente importantes.

“Se Washington ultrapassasse esse limite (de sancionar grandes bancos chineses), Pequim quase certamente reagiria, e o ambiente político para uma cúpula (entre Trump e Xi) se deterioraria drasticamente”, disse Sun Chenghao, pesquisador sênior do Centro de Segurança e Estratégia Internacional da Universidade Tsinghua, em Pequim.

Essa medida pode não cancelar automaticamente o encontro, mas “mudaria o foco da cúpula da estabilização para o controle de danos”, afirmou.

Considerações sobre a cúpula

Os dois lados avaliarão o impacto de uma escalada sobre a cúpula, que deve ser a primeira visita de Estado de Xi aos EUA em 11 anos.

Embora Pequim não queira ser visto cooperando com um regime de sanções ao qual se opõe, poderia adotar medidas cuidadosas — como reduzir discretamente as compras de petróleo ou intensificar suas mensagens políticas a Teerã e os esforços para incentivar a contenção.

As compras chinesas de petróleo iraniano já caíram acentuadamente em relação ao ano passado, à medida que o bloqueio americano restringiu as exportações de petróleo bruto do Irã.

Analistas chineses também sugeriram nas últimas semanas que há pontos de convergência entre os interesses de Washington e Pequim, especialmente no que diz respeito à retomada do fluxo comercial no Estreito de Ormuz, que foi prejudicado pelo conflito, e à restauração de uma estabilidade regional mais ampla, também favorável ao comércio.

E Pequim reforçou nos últimos dias suas mensagens pedindo contenção e operações normais no estreito.

Em uma declaração conjunta após uma reunião com o rei Abdullah II da Jordânia, em Pequim, na segunda-feira (24), Xi pediu a restauração da “passagem normal” pelo estreito e uma “solução abrangente” para o conflito.

O vice-ministro das Relações Exteriores da China, Miao Deyu, afirmou na semana passada, durante uma reunião com autoridades iranianas em Pequim, que a China estava “ativamente empenhada em promover negociações de paz”.

Ainda assim, Pequim demonstrou cautela em assumir um papel direto de mediador no conflito, preferindo uma posição que proteja seus próprios interesses econômicos e reforce sua imagem como uma potência estável que apoia a paz regional, em contraste com as oscilações de Washington.

Qualquer cooperação com os EUA para restaurar a paz regional “não deve ser reduzida a ‘fazer um favor a Trump’”, afirmou Zhao, em Xangai.

“Pequim está disposta a contribuir para pôr fim à crise, mas não está disposta a se tornar um instrumento da estratégia de pressão máxima de Washington.”

Por: CNN Brasil

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