A França entrou na Copa do Mundo com uma das seleções mais fortes do torneio e favorita ao título. Ao mesmo tempo, espalhou jogadores por quase todos os continentes. Nenhum outro país exportou tantos atletas para outras equipes que disputam o Mundial do Canadá, México e Estados Unidos. Entre os convocados da competição, 76 jogadores nascidos na França vestem camisas diferentes da azul tradicional dos franceses.
É um número que transforma a França em uma espécie de potência dupla. Ela disputa a Copa com sua própria seleção e, de certa forma, também participa dela por meio dos atletas que decidiram representar as origens familiares. A lista atravessa fronteiras e continentes. Da Argélia ao Haiti. Do Senegal ao Marrocos. Da Tunísia à República Democrática do Congo. Nenhum outro país exerce tamanho impacto humano sobre a competição.
A Argélia lidera o ranking com 13 franceses de nascimento. O Haiti aparece logo atrás, com 12. A República Democrática do Congo conta com 11. O Senegal tem 10. Costa do Marfim, Tunísia e Marrocos também carregam forte influência do sistema de formação francês.
A explicação começa muito antes desta Copa, passa pela história colonial francesa, pelas ondas migratórias do século XX e desemboca nos campos de várzea, nos centros de treinamento e nos bairros periféricos das grandes cidades.

Quando a França enfrenta a própria diáspora
A Argélia conta com nomes como o ponta direita Riyad Mahrez, ex-Manchester City e atualmente no Al-Ahli, o lateral-esquerdo Rayan Aït-Nouri, outro destaque do City, o atacante Amine Gouiri, do Olympique de Marselha, os volantes Nabil Bentaleb, do Lille, e Ismaël Bennacer, emprestado pelo Milan ao Dínamo de Zagreb, e o meia Houssem Aouar, do Al-Ittihad, da Arábia Saudita. O Senegal reúne o goleiro Édouard Mendy, ex-Chelsea e hoje no Al-Ahli, o zagueiro Kalidou Koulibaly, também ex-Chelsea e atual Al-Hilal, o atacante Iliman Ndiaye, do Everton, e o zagueiro Moussa Niakhaté, do Lyon.
A República Democrática do Congo, surpresa da primeira rodada ao empatar em 1 a 1 com Portugal, também tem jogadores nascidos na França e que estão na elite do futebol europeu, como os atacantes Yoane Wissa, do Newcastle, e Cédric Bakambu, do Bétis. O Haiti voltou ao Mundial carregando uma forte influência francesa em praticamente todos os setores do campo.
Enquanto outros países dependem da descoberta ocasional de talentos, a França construiu uma máquina permanente de produção de jogadores. Muitos jovens crescem dentro da estrutura do futebol francês, defendem seleções de base da França e sonham com uma vaga na seleção principal. Em determinado momento da carreira, porém, precisam fazer uma escolha. A concorrência é tão brutal que vários enxergam um caminho mais viável nas seleções de seus pais ou avós.
Para alguns, representar o país de origem dos pais sempre foi um objetivo natural. Para outros, a escolha surge quando percebem que dificilmente encontrarão espaço numa seleção francesa repleta de estrelas.
A Argélia talvez seja o exemplo mais emblemático. Estrelas como Mahrez e Aït-Nouri nasceram na França. Metade do elenco foi formado dentro do futebol francês. Todos acabaram construindo suas trajetórias internacionais com outra camisa.
Entre os muitos jogadores nascidos na França que defendem outras bandeiras nesta Copa do Mundo, poucos carregam um sobrenome tão pesado quanto Luca Zidane. Titular da Argélia na partida contra a Argentina, o goleiro de 28 anos entrou em campo levando consigo uma história que atravessa gerações e fronteiras.
Filho de Zinedine Zidane, um dos maiores jogadores da história da França e herói da seleção francesa campeã mundial em 1998, Luca cresceu longe do país que agora representa. Nascido em Marselha, passou praticamente toda a infância e a formação no Real Madrid, onde chegou aos seis anos e percorreu cada etapa até estrear pela equipe principal em 2018.
Também vestiu as cores da França nas categorias de base e conquistou o Europeu Sub-17 em 2015. Ainda assim, quando chegou a hora da escolha definitiva, preferiu seguir um caminho diferente. A decisão não nasceu de uma questão esportiva, mas de um vínculo familiar cultivado desde cedo.
Descendente de argelinos por parte de pai, Luca escolheu defender a Argélia pela memória do avô e pelas raízes preservadas dentro de casa. Enquanto Zinedine se transformou em um dos maiores ídolos da história dos Bleus, o filho escolheu escrever a própria trajetória vestindo as cores do país que ajudou a moldar a identidade da família muito antes da fama chegar ao sobrenome Zidane.
– É uma honra jogar pela Argélia. A decisão final foi minha, mas conversei com minha família, meus pais, meus irmãos, meu avô. Meu pai ficou feliz, ele sabia que era algo que eu queria fazer. Poder jogar uma Copa do Mundo é o sonho de qualquer criança – disse o goleiro em entrevista ao The Athletic.
Zidane foi assistir ao filho na estreia contra a Argentina, mas viu Luca passar por maus momentos: ele jogou com uma máscara facial para proteger uma fratura na mandíbula e falhou nos dois primeiros gols de Lionel Messi na vitória argentina sobre a Argélia por 3 a 0.
No Senegal, jogadores como Édouard Mendy, Kalidou Koulibaly, Moussa Niakhaté, Pape Gueye, Iliman Ndiaye e outros integrantes do elenco nasceram em cidades francesas. Ainda assim, carregam no uniforme as cores do país de suas famílias.

O caso do Haiti chama ainda mais atenção. Ausente de Copas do Mundo durante mais de meio século, o país caribenho voltou ao torneio apoiado fortemente na diáspora francesa. Quando o Haiti enfrentar o Brasil, haverá em campo uma equipe construída parcialmente a milhares de quilômetros de Porto Príncipe. Doze jogadores do elenco nasceram na França. Entre eles, dois que jogaram a última Premier League: o meia Jean-Ricner Bellegarde, do Wolverhampton, e o atacante Wilson Isidor, do Sunderland. O artilheiro Duckens Nazon, do Esteghlal, do Irã, e o veterano goleiro Johny Placide, do Bastiais, da França, também nasceram em território francês.
Por: Lance!


