Espanha convoca eleição antecipada em meio a crise no Parlamento
Pedro Sánchez tenta ampliar apoio ao governo em votação de alto risco; pesquisas apontam vantagem da direita e possível avanço da extrema direita
O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, anunciou nesta segunda-feira (05) a convocação de eleições gerais antecipadas para 29 de novembro, após o Congresso rejeitar dois decretos do governo relacionados à crise habitacional.
A decisão encerra antecipadamente a atual legislatura e ocorre em um momento de forte pressão sobre o governo de coalizão liderado pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), que enfrenta dificuldades para aprovar medidas no Parlamento fragmentado.
Os decretos de habitação foram derrubados na sexta-feira (02) com votos contrários do Partido Popular (PP), do Vox e do Junts. Entre as medidas estavam restrições a despejos de pessoas em situação vulnerável e mudanças nas regras de contratos de aluguel.
A derrota parlamentar ocorreu após semanas de mobilizações relacionadas ao custo da moradia no país. O tema ganhou força depois do despejo de uma mulher de 87 anos em Madri, episódio que provocou manifestações e uma acampada na região da Puerta del Sol.
Pressão sobre Sánchez
Sánchez afirmou, em pronunciamento na sede do governo, que pretende obter nas urnas uma maioria parlamentar mais ampla para sustentar seu projeto político.
“Precisamos renovar o apoio da população. Precisamos mobilizar e conquistar uma maioria progressista muito maior no Parlamento, que nos permita superar interesses estabelecidos, promover novos avanços sociais e continuar transformando a Espanha”, disse o primeiro-ministro.
O socialista também reconheceu erros durante o governo e afirmou que parte do eleitorado está insatisfeita com sua administração.
As pesquisas citadas no material apontam vantagem da oposição de direita. Uma eventual coalizão liderada pelo PP, com apoio do Vox, aparece como um dos cenários considerados pelos levantamentos, o que poderia levar a extrema direita ao governo central espanhol pela primeira vez desde o fim da ditadura de Francisco Franco.
O cenário, porém, é marcado pela fragmentação partidária. Sánchez chegou ao cargo após derrubar o governo conservador de Mariano Rajoy em 2018 e, desde então, formou diferentes acordos parlamentares para permanecer no poder.
Em 2023, conseguiu um novo mandato de quatro anos após negociar apoio de partidos independentistas catalães. O acordo envolveu uma controversa lei de anistia para líderes separatistas, medida que continua provocando resistência entre parte do eleitorado espanhol.
Governo enfrenta dificuldades no Parlamento
A fragmentação da base de apoio dificultou a aprovação de projetos durante o terceiro mandato de Sánchez. O governo também não conseguiu aprovar um orçamento nacional desde 2023.
Apesar das dificuldades legislativas, a economia espanhola aparece entre as de melhor desempenho entre as economias desenvolvidas, segundo o material utilizado como base para esta reportagem.
O líder do Vox, Santiago Abascal, afirmou que o resultado da eleição não está definido. Segundo ele, pesquisas semelhantes às atuais também indicavam vantagem da direita antes das eleições de 2023, quando Sánchez conseguiu formar uma maioria parlamentar.
O Partido Popular, principal legenda de oposição, comemorou a convocação. O líder da sigla, Alberto Núñez Feijóo, vinha defendendo a dissolução do Parlamento e a realização de eleições antecipadas.
Histórico político
Sánchez ganhou projeção ao liderar a iniciativa que derrubou o governo de Mariano Rajoy após escândalos de corrupção envolvendo integrantes do PP.
No próprio governo socialista, entretanto, integrantes de alto escalão passaram a enfrentar acusações de corrupção no último ano, aumentando a pressão sobre o primeiro-ministro e sobre o PSOE.
Durante seus governos, Sánchez também adotou medidas relacionadas à legislação trabalhista, imigração e direitos sociais. Em 2018, seu governo autorizou a entrada na Espanha do navio Aquarius, que transportava 629 migrantes depois de Itália e Malta recusarem o desembarque.
Mais recentemente, o primeiro-ministro entrou em conflito com os Estados Unidos e parte dos governos europeus ao rejeitar a proposta de elevar os gastos espanhóis com defesa para 5% do Produto Interno Bruto (PIB).
A nova eleição será realizada em 29 de novembro. O decreto formal de dissolução das Cortes e convocação dos eleitores será publicado no Boletim Oficial do Estado espanhol nesta terça-feira (06).
Por: CNN Brasil
