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AfD tem vitória sem governo na Alemanha

Partido conquistou 39 dos 83 lugares — três abaixo da maioria absoluta — e depende de coligação para governar
07/09/2026 às 09h11
AfD tem vitória sem governo na Alemanha

A AfD venceu quase metade da Saxônia-Anhalt, mas ficou a três lugares do poder. O cordão sanitário pode travá-la hoje e alimentá-la amanhã.

Na noite eleitoral em Magdeburgo, Tino Chrupalla anunciou um “claro mandato para governar”. Os números pareciam autorizá-lo: a Alternativa para a Alemanha obteve 43,8% dos votos, mais do dobro de 2021, e reduziu a CDU a 17,2%. Mas a aritmética escreveu outra frase. A AfD conquistou 39 dos 83 lugares — três abaixo da maioria absoluta — e nenhum outro partido aceita uma coligação com ela.

A extrema direita venceu. Mas a pergunta que ressalta é o que significa vencer sem conseguir governar. Numa democracia parlamentar, o primeiro lugar não oferece automaticamente o poder; governa quem reúne uma maioria.

Em Portugal, em novembro de 2015, um governo de um partido minoritário representou um período de grande estabilidade para o premier socialista, António Costa.

O problema começa sempre onde termina o regulamento. Quase 44% escolheu uma organização cujo braço regional é classificado desde 2023 pelos serviços de proteção da Constituição como comprovadamente extremista, por atacar a dignidade humana e o princípio democrático.

Tratar o resultado como inconveniência processual seria tão imprudente quanto normalizar o programa que ele recompensa. A democracia pode fechar a porta ao partido; não pode fingir que os eleitores desapareceram.

Antes da votação, a AfD substituiu parte da agressividade dos palanques por festas, salsichas e uma promessa de pertencimento. A “extrema direita de churrasco” encontrou terreno num estado envelhecido, esvaziado de jovens e marcado pela sensação de que a reunificação distribuiu cidadania sem reconhecimento. Depois da vitória, Chrupalla trocou a convivialidade pela inevitabilidade: se fomos os primeiros, o governo nos pertence.

Não pertence. Um mandato eleitoral é uma autorização proporcional, não uma escritura de propriedade. A CDU e os demais partidos podem construir outra maioria. Terão, porém, de provar que ela serve para algo além de excluir a AfD. Uma coligação contraditória, unida apenas pelo medo, pode manter Ulrich Siegmund fora do gabinete durante cinco anos e preparar-lhe a maioria absoluta seguinte.

Este é o paradoxo do cordão sanitário. Ele protege as instituições e compra tempo para os democratas. Mas tempo não é solução. Se o próximo governo repetir estagnação económica, abandono rural, escassez de serviços e o tom moralista com que Berlim fala ao Leste, cada conflito será usado pela AfD como prova de que “o sistema” conspirou contra a vontade popular.

A consequência também é federal. A CDU governava a Saxônia-Anhalt desde 2002 e perdeu mais de metade dos votos. O resultado enfraquece Friedrich Merz, dá à AfD uma vitrine nacional e alimenta a ideia de que o poder em Berlim nascerá de vitórias no Leste. Mesmo na oposição, 39 deputados podem pautar o debate e converter acordos dos adversários em propaganda.

A resposta democrática exige duas recusas. A primeira é não entregar polícia, escolas, cultura e informações sensíveis a um partido considerado extremista no estado. A segunda é não reduzir 43,8% dos votos a ignorância, nostalgia ou culpa moral. Quem votou por protesto precisa encontrar resultados; quem votou pelo programa precisa encontrar limites constitucionais claros.

A AfD ganhou a eleição e ainda não ganhou o governo. Esta distância de três lugares oferece à Alemanha uma última margem para demonstrar que o centro democrático sabe fazer mais do que levantar muros. Se usar o tempo apenas para sobreviver, o próximo mandato talvez já não precise de interpretação.

Por: CNN Brasil

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