Israel vai às urnas na 1ª eleição desde o 7/10 com era Netanyahu à prova
Votação é a primeira desde o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, quando mais de 1.200 pessoas morreram e outras 251 foram levadas como reféns
Os eleitores de Israel vão às urnas nesta terça-feira (27) para escolher os integrantes do Parlamento em uma eleição que pode definir o futuro político do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Pesquisas divulgadas antes da votação indicam que a coalizão governista pode não alcançar a maioria necessária para permanecer no poder.
Segundo o Comitê Central Eleitoral de Israel, cerca de 7,3 milhões de pessoas estão aptas a votar em aproximadamente 12 mil seções eleitorais. O voto é facultativo para cidadãos israelenses a partir dos 18 anos.
A eleição ocorre após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que deixou mais de 1.200 mortos e 251 pessoas sequestradas. Em resposta, o governo israelense iniciou uma ofensiva na Faixa de Gaza, onde mais de 75 mil pessoas morreram desde o início da guerra, segundo os números apresentados no levantamento que embasa esta reportagem.
O pleito também marca um período incomum de estabilidade institucional: pela primeira vez desde 1988, uma legislatura israelense completou o mandato sem dissolução antecipada.
Pesquisas apontam dificuldades para Netanyahu
Uma pesquisa do Channel 13 News indica que o bloco de Netanyahu pode cair de 64 para 50 cadeiras no Knesset, o Parlamento israelense, que possui 120 assentos. Para formar uma maioria, são necessárias pelo menos 61 cadeiras.
O principal adversário do primeiro-ministro é Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel. Ele tenta reunir forças contrárias ao atual governo, mas as projeções também indicam dificuldades para conquistar maioria sem o apoio de partidos árabes.
Segundo o historiador João Koatz Miragaya, colaborador do Instituto Brasil Israel, Netanyahu busca impedir que a oposição alcance força suficiente para formar uma coalizão alternativa.
“O que Netanyahu tenta fazer agora é impedir que a oposição consiga mais de 60 parlamentares, a ponto de formar uma coalizão [...] Ele também tem o desafio de levar às urnas os eleitores, principalmente os mais moderados, que estão descontentes com o desempenho do governo e com as grandes rupturas sociais causadas por ele”, afirmou.
Quem são os principais adversários do premiê
Além de Eisenkot, a disputa reúne outros nomes que já ocuparam posições importantes no governo israelense.
Os ex-primeiros-ministros Naftali Bennett e Yair Lapid também integram a oposição a Netanyahu. Em 2021, os dois participaram de uma coalizão heterogênea que encerrou temporariamente o longo período de poder do atual premiê. O governo durou 18 meses.
Outro adversário é Avigdor Lieberman, ex-ministro da Defesa e antigo aliado de Netanyahu. Ele deixou o governo em 2018, acusando o primeiro-ministro de adotar uma postura branda diante dos combatentes palestinos na Faixa de Gaza.
Eisenkot, por sua vez, construiu sua imagem política a partir da trajetória militar e das críticas à condução da guerra. Seu filho morreu no conflito em Gaza, e o ex-chefe militar passou a questionar a falta de uma estratégia clara do governo.
Apesar das diferenças em relação a Netanyahu, Eisenkot não representa necessariamente uma mudança radical na política de segurança israelense. Ele teve papel central na formulação de estratégias militares de uso intensivo da força e participou do planejamento da campanha em Gaza.
Likud tenta preservar a coalizão de direita
O partido Likud, liderado por Netanyahu, governa Israel desde 2009, com uma interrupção entre junho de 2021 e dezembro de 2022.
A atual coalizão reúne forças de direita e grupos religiosos, entre eles o Sionismo Religioso, liderado pelo ministro das Finanças Bezalel Smotrich, e o Poder Judaico, do ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir. Os dois defendem políticas duras contra os palestinos e apoiam a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada.
A coalizão também enfrentou dificuldades relacionadas ao recrutamento militar obrigatório de judeus ultraortodoxos. O partido Judaísmo Unido da Torá deixou o governo em meio à disputa sobre o tema.
Para manter o apoio de partidos religiosos e da ultradireita, Netanyahu fez concessões políticas e orçamentárias. Entre elas estão medidas relacionadas à isenção do serviço militar para ultraortodoxos e recursos destinados a assentamentos na Cisjordânia.
Mesmo com essas alianças, as pesquisas citadas no material de referência indicam que o bloco governista pode não conseguir reunir os assentos necessários para formar uma maioria parlamentar.
Como funciona a eleição em Israel
Israel adota o sistema parlamentarista. A população vota nos partidos que disputarão as 120 cadeiras do Knesset, e a composição do Parlamento determina quais forças políticas poderão formar o governo.
O presidente do país, atualmente Isaac Herzog, exerce funções principalmente cerimoniais e formais. Já o primeiro-ministro é o chefe de governo e conduz a administração nacional.
Para conquistar representação parlamentar, os partidos precisam obter pelo menos 3,25% dos votos. Como nenhuma legenda jamais alcançou sozinha os 61 assentos necessários para a maioria absoluta, os governos israelenses dependem de coalizões entre diferentes partidos.
O professor de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Michel Gherman avalia que a mobilização de grupos que tradicionalmente apresentam menor participação pode influenciar o resultado.
“Ao que tudo indica, o nível de participação deve ser acima do normal entre grupos urbanos, seculares e árabes, que votam menos, normalmente. Já os grupos pró-Netanyahu têm estado menos entusiasmados e demonstrado menos confiança no Parlamento”, afirmou.
Por: CNN Brasil
