Política

Eleições 2026: continuidade das políticas públicas entra no centro do debate no Espírito Santo

Com Casagrande para o Senado e Ferraço para o Governo, grupo à frente do Estado torna continuidade administrativa discussão central nessas eleições.
27/09/2026 às 11h42
Eleições 2026: continuidade das políticas públicas entra no centro do debate no Espírito Santo


O Espírito Santo chega às eleições de 2026 com uma configuração política que coloca a continuidade administrativa no centro da disputa pelo Palácio Anchieta. O grupo liderado por Renato Casagrande, que governou o Estado de 2011 a 2014 e retornou ao cargo em 2019, manteve-se à frente do Executivo estadual até abril deste ano, quando Casagrande deixou o governo para disputar uma das duas vagas ao Senado e o então vice-governador Ricardo Ferraço assumiu o comando do Estado. Ferraço, pelo MDB, concorre agora à eleição para governador, tendo como principais adversários Lorenzo Pazolini (Republicanos -10), e Helder Salomão, (PT - 13) . Também concorrem Breno Barcelos (MISSÃO-14) e Rafael Demuner (UP - 80). Para o Senado, além da disputa de Casagrande, os eleitores capixabas escolherão outro representante para o mandato no Congresso Nacional. A Justiça Eleitoral confirmou que 591 candidaturas foram registradas no Estado para governador, senador, deputado federal e deputado estadual.

Estabilidade política e equilíbrio das contas

Um dos principais argumentos apresentados pelo grupo governista está relacionado à combinação entre estabilidade institucional, planejamento de longo prazo e equilíbrio fiscal. Em 2025, o Espírito Santo registrou R$ 5,1 bilhões em investimentos com recursos próprios, segundo dados apresentados pela Secretaria da Fazenda, enquanto manteve resultado orçamentário superavitário. O Estado também apresentou, naquele ano, poupança corrente equivalente a 21,1% da Receita Corrente Líquida, percentual apontado pelo Governo como o maior entre os estados brasileiros.

O desempenho fiscal também aparece nos rankings nacionais. No Ranking de Competitividade dos Estados 2025, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), o Espírito Santo ficou em sétimo lugar no resultado geral, em primeiro lugar no pilar de Solidez Fiscal e em segundo em Infraestrutura. Já a edição divulgada em 2026, que analisa a evolução entre 2023 e 2025, apontou o Espírito Santo como líder na dimensão Gestão Pública e como o Estado que mais avançou na dimensão Economia no período. São indicadores que ajudam a explicar por que a capacidade de manter investimentos públicos mesmo em períodos de instabilidade econômica passou a fazer parte da discussão sobre o modelo de gestão capixaba.

Saúde: regionalização e ampliação da rede

Na saúde, a estratégia estadual tem sido marcada pela ampliação da estrutura regional e pela tentativa de reduzir a concentração de serviços na Grande Vitória. No Norte do Estado, um dos principais exemplos é a construção do Complexo de Saúde do Norte, em São Mateus, concebido para ampliar e regionalizar a oferta de serviços especializados e hospitalares para a população de municípios da região. Em 2025, o Governo anunciou R$ 635 milhões para novos projetos no SUS, incluindo Centros de Especialidades Odontológicas, Centros de Atenção Psicossocial, conclusão de Unidades Básicas de Saúde e aquisição de ambulâncias. O Estado também anunciou outros R$ 722,3 milhões para hospitais, ampliações e equipamentos.

A discussão sobre continuidade, nesse caso, envolve projetos que ultrapassam um exercício financeiro ou um mandato. No Sul, por exemplo, o Governo Estadual destinou R$ 100 milhões para a segunda etapa do Hospital do Câncer de Cachoeiro de Itapemirim, dentro de um empreendimento estimado em R$ 263,3 milhões. O cronograma prevê repasses estaduais também em 2027, o que demonstra como determinados investimentos públicos dependem de planejamento plurianual para chegar à etapa final.

Segurança pública e queda dos homicídios

Na segurança pública, os indicadores recentes mostram uma trajetória de redução da violência letal. Em 2025, o Espírito Santo registrou 796 homicídios dolosos, o menor número desde o início da série histórica, em 1996, e uma queda de 6,8% em relação a 2024. No primeiro semestre de 2026, foram registrados 360 homicídios, 7% abaixo do mesmo período de 2025, também o menor resultado para um primeiro semestre desde o início da série.

Os resultados são associados pelo Governo ao Programa Estado Presente em Defesa da Vida, à integração das forças policiais, à recomposição de efetivos, ao uso de tecnologia e aos investimentos em infraestrutura de segurança. Os dados, entretanto, não eliminam os desafios existentes: o próprio Ranking de Competitividade dos Estados 2025 colocou o Espírito Santo apenas na 22ª posição no pilar de Segurança Pública, mostrando que a melhora dos indicadores de homicídios convive com outros problemas que ainda exigem atenção.

Fundo Soberano: transformar receita do petróleo em poupança e investimento

Outro componente da política econômica associado ao período de Casagrande é o Fundo Soberano do Espírito Santo (Funses), criado em 2019. O mecanismo foi estruturado para administrar, com visão de longo prazo, receitas provenientes da exploração de petróleo e gás natural. Na prática, o fundo possui duas funções principais: formar uma reserva financeira capaz de reduzir a exposição do Estado à volatilidade das receitas do petróleo e direcionar recursos para investimentos estratégicos capazes de estimular novas cadeias produtivas, inovação, infraestrutura e desenvolvimento regional.

O modelo busca, portanto, transformar uma receita associada a um recurso natural finito em patrimônio financeiro e capacidade de investimento para períodos futuros. Uma das frentes do Funses é o FIP Funses 1, fundo de participação com capital subscrito de R$ 250 milhões voltado a empresas que tenham ou venham a ter investimentos no Espírito Santo.

Rodovias, produção e competitividade

A infraestrutura rodoviária também se tornou uma das principais marcas dos investimentos estaduais. A lógica é direta: estradas em melhores condições reduzem custos de transporte, facilitam o deslocamento da população e melhoram o escoamento da produção agrícola e industrial. Em Santa Maria de Jetibá, por exemplo, o Governo autorizou a recuperação de 56,58 quilômetros da ES-264, com investimento estimado em mais de R$ 57 milhões, beneficiando também Afonso Cláudio e Domingos Martins.

Em Santa Teresa, a pavimentação da Rodovia Hilton José Corteletti recebeu investimento superior a R$ 55 milhões em mais de oito quilômetros, conectando localidades e fortalecendo a logística de uma região com forte produção agrícola e atividade turística. No Sul, intervenções em rodovias de Cachoeiro de Itapemirim, incluindo a duplicação da Rodovia do Frade e a restauração da ES-478, somavam R$ 217,14 milhões em investimentos estaduais.

Relação com os municípios

Outro elemento do modelo administrativo é a utilização de convênios e fundos estaduais para financiar intervenções executadas em parceria com as prefeituras. A lógica permite que o Estado participe de problemas que, embora estejam dentro dos municípios, exigem recursos que muitas administrações municipais não conseguem mobilizar sozinhas.

Em Linhares, por exemplo, Estado e Prefeitura reúnem mais de R$ 59 milhões em obras de macrodrenagem e mobilidade, incluindo intervenções nos bairros Santa Cruz e Interlagos e a construção da nova rodoviária municipal. Em Barra de São Francisco, parcerias recentes envolvem saúde, mobilidade e infraestrutura, com mais de R$ 78 milhões anunciados em investimentos. Em São Mateus, o Governo Estadual participa de obras de drenagem, pavimentação e urbanização, além de intervenções estruturais como a Ladeira do Besouro.

Obras que atravessam mandatos

Na Região Metropolitana, uma das intervenções de maior porte é a revitalização da Rodovia Governador José Sette, em Cariacica, com investimento de R$ 76 milhões em parceria entre Estado e município. A obra envolve um eixo estratégico de mobilidade entre Tucum e Cariacica-Sede.

Na Região Norte, a macrodrenagem de Guriri, em São Mateus, é um dos projetos mais expressivos. A segunda etapa foi licitada com previsão de R$ 321,8 milhões, incluindo 13,5 quilômetros de rede de drenagem e aproximadamente 125 mil metros quadrados de pavimentação. Também está em execução a duplicação da Rodovia Othovarino Duarte Santos, intervenção associada à melhoria do acesso a Guriri.

Na Região Noroeste, Barra de São Francisco concentra projetos de infraestrutura financiados em parceria com o Estado. Entre eles está a nova barragem no Rio São Francisco, cujo primeiro repasse estadual foi de R$ 2,128 milhões, correspondente a 40% do valor previsto no plano de aplicação, além de novos investimentos em mobilidade e infraestrutura urbana.

Na Região Serrana, a recuperação da ES-264, entre Alto Lajinha e Santa Maria de Jetibá, representa um investimento estimado em mais de R$ 57 milhões. A obra alcança 56,58 quilômetros e envolve diretamente três municípios, com impacto esperado sobre o transporte de mercadorias agrícolas e a segurança viária.

Na Região Sul, o complexo de obras rodoviárias de Cachoeiro de Itapemirim é um dos exemplos de projetos de grande porte. A restauração da ES-478 e a duplicação da ES-488, conhecida como Rodovia do Frade, somavam R$ 217,14 milhões em recursos estaduais. No mesmo território, a segunda etapa do Hospital do Câncer de Cachoeiro envolve R$ 100 milhões de participação estadual, com repasses previstos também para 2027.

O precedente histórico da descontinuidade

A discussão sobre continuidade também recupera o histórico político do Espírito Santo. Renato Casagrande governou entre 2011 e 2014, mas não conseguiu a reeleição naquele ciclo eleitoral, sendo sucedido por Paulo Hartung, que comandou o Estado entre 2015 e 2018. Durante aquele período, algumas obras e projetos foram reprogramados, suspensos ou tiveram seus contratos revisados. Documentos oficiais do próprio Governo registram, em 2016, a existência de obras paralisadas e a retomada de intervenções após revisão de contratos.

Um caso emblemático é o Cais das Artes, cuja construção havia avançado durante o primeiro governo Casagrande, mas foi paralisada em 2015, durante a administração seguinte. O episódio é frequentemente utilizado no debate político como exemplo dos riscos associados à mudança de prioridades entre administrações. Ao mesmo tempo, é importante registrar que paralisações de obras públicas podem decorrer de diferentes fatores, como problemas contratuais, questões judiciais, dificuldades financeiras ou revisão de projetos.

Continuidade como tema eleitoral

É nesse contexto que a eleição de 2026 coloca em discussão dois modelos de condução do Estado: de um lado, a manutenção de políticas, obras, programas e mecanismos financeiros que vêm sendo executados ao longo de diferentes exercícios; de outro, a possibilidade de mudança de prioridades a partir de uma nova administração. Para o grupo de Renato Casagrande, a candidatura de Ricardo Ferraço representa a possibilidade de dar sequência ao planejamento iniciado nos últimos anos, enquanto a candidatura de Casagrande ao Senado busca levar para Brasília a experiência acumulada na gestão estadual.

A escolha, contudo, envolve não apenas a disputa pelo Governo, mas também a composição da representação capixaba no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa. Serão eleitos governador e vice-governador, dois senadores, deputados federais e deputados estaduais. Nesse cenário, o debate sobre continuidade passa a envolver não apenas nomes, mas também a capacidade de manter investimentos, concluir obras iniciadas, preservar o equilíbrio fiscal, ampliar serviços públicos e estabelecer novas prioridades para o Espírito Santo.

Portal Capixaba Hoje - Por Rubens Floriano. Imagem Ilustrativa: Reprodução/internet.

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