Minoria discorda sobre voto distrital misto frente à ofensiva do centrão
Partidos menores e ideológicos afirmam que mudança favorece o "coronelismo";
A proposta de substituir o atual sistema proporcional pelo voto distrital misto divide partidos com bancadas menores na Câmara dos Deputados. A mudança, defendida pelo presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), é vista com preocupação por siglas que temem perder espaço para candidatos com forte presença regional e menor identificação ideológica.
Entre os partidos ouvidos pela CNN estão PSOL, Missão, Novo, PRD, PDT e Avante. Uma das preocupações é a possível redução da representação de políticos com grande alcance nas redes sociais e votação expressiva, conhecidos como “puxadores de voto”. A deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP) foi citada como exemplo desse perfil.
Como funciona o voto distrital misto
Atualmente, deputados federais, estaduais, distritais e vereadores são eleitos pelo sistema proporcional. Nesse modelo, os votos recebidos pelos candidatos de um partido ou federação são somados aos votos de legenda. O resultado determina quantas cadeiras a sigla terá direito a ocupar, enquanto a votação individual define quais candidatos assumem as vagas.
Esse mecanismo permite que candidatos com votação muito alta ajudem a eleger outros integrantes da mesma legenda, mesmo que esses tenham recebido menos votos do que concorrentes de outros partidos.
Um exemplo citado é o do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que recebeu mais de 3 milhões de votos e contribuiu para que o PL conquistasse 121 cadeiras na Câmara. Em Minas Gerais, Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) recebeu 92 mil votos, mas não conseguiu se reeleger, enquanto Sargento Mello-Casal (PL-MG) obteve uma vaga com 25 mil votos.
No modelo distrital misto em discussão, o eleitor votaria duas vezes. O estado seria dividido em distritos, responsáveis pela eleição de metade dos parlamentares, escolhidos pelos votos individuais. A outra metade seria preenchida por listas partidárias, também submetidas à escolha dos eleitores.
A proposta em discussão prevê uma transição gradual. Em 2030, seria adotado um modelo intermediário chamado de “distritão”, com metade das vagas destinada aos candidatos mais votados e a outra metade preenchida por listas. A implementação completa do voto distrital misto ficaria para 2034.
Os critérios para definir os distritos e a distribuição das vagas ainda não foram estabelecidos. A proposta deve tramitar por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), e a expectativa é de criação de um grupo de trabalho para discutir o tema.
PSOL aponta risco de compra de votos
Entre as críticas apresentadas por partidos menores está o risco de fortalecimento de lideranças locais e de práticas como a compra de votos. O líder do PSOL na Câmara, Tarcísio Motta (RJ), afirmou que a bancada ainda não definiu posição, mas demonstrou preocupação com os efeitos do modelo.
“Fortalecer o coronelismo e o esquema corrupto de compra de votos”, declarou à CNN ao comentar os possíveis impactos da mudança.
O parlamentar disse ver com bons olhos a adoção do voto em lista, desde que haja paridade entre homens e mulheres. A crítica, segundo ele, está no formato misto, que poderia reduzir o espaço de partidos ideológicos ao favorecer uma política mais personalizada.
O deputado Jonas Donizette (PSB-SP) também questionou a representatividade dos distritos. Para ele, a divisão territorial precisa considerar a diversidade dos estados, evitando que parlamentares eleitos em regiões específicas deixem de representar outras áreas.
Já Kim Kataguiri, único deputado federal eleito pelo Missão em São Paulo, considerou razoável uma proposta que reserve metade das vagas ao sistema de listas. O presidente da legenda, Renan Santos, havia criticado o modelo em 2025, sob o argumento de que poderia beneficiar lideranças políticas tradicionais e locais.
Centrão vê mudança como estratégia de sobrevivência
A proposta também está relacionada à preocupação de partidos do Centrão com a perda de espaço no Congresso. Hugo Motta já teria apresentado a mudança como uma alternativa para preservar a força do bloco diante do crescimento do bolsonarismo.
Após as eleições, partidos como PSDB, União Brasil, PP e PSD registraram perdas de cadeiras na Câmara. Essas siglas apoiaram conjuntamente a reeleição de Motta para a presidência da Casa.
A proposta, no entanto, enfrenta resistência de diferentes grupos políticos. O líder da oposição, Cabo Gilberto Silva (PL-PB), manifestou posição contrária à mudança. O PL, que elegeu 121 deputados em 2026, também poderia perder parte de sua representação caso o novo sistema fosse adotado.
O debate ainda depende da definição dos critérios de distribuição das vagas e da composição dos distritos. Não há, portanto, um formato final aprovado para a mudança do sistema eleitoral.
Por: CNN Brasil
