Lista de boicote a profissionais por posição política circula em ao menos 6 cidades do ES
Ação remete a práticas nazistas e, pela legislação brasileira, é considerada crime
Parece até que voltamos ao ano de 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu a disputa para a Presidência da República e eleitores insatisfeitos com o resultado das urnas começaram a divulgar listas de comerciantes e profissionais que deveriam ser boicotados por serem "de esquerda". Agora, grupos retomam o movimento nas redes sociais e aplicativos de mensagem para atingir quem adotou posicionamento político pela reeleição de Lula na eleição de 2026. No Espírito Santo, há registros em ao menos seis cidades.
Os casos foram relatados em Vitória, Colatina, Santa Maria de Jetibá, Afonso Cláudio, Baixo Guandu e Cachoeiro de Itapemirim. A prática, registrada por aqui e também em Estados como Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Mato Grosso, remete não apenas às eleições de quatro anos atrás, mas a ações implementadas pelo nazismo na Alemanha. Vale ressaltar que, apesar do tempo decorrido entre as duas eleições, a legislação brasileira não mudou: a criação e disseminação dessas listas é crime.
"Para quem conhece a história, sabe-se que a marcação, perseguição e tentativa de asfixia econômica de cidadãos por suas convicções remetem a episódios sombrios da humanidade, como os boicotes promovidos por regimes autoritários e pelo nazismo no século XX, nos quais a segregação de comerciantes e trabalhadores era utilizada como ferramenta de intolerância e controle social", sustenta um advogado do interior, cujo nome foi incluído em uma das listas.
E não precisa nem mesmo ter se manifestado publicamente para ser identificado como eleitor de Lula e, assim, ser incluído na lista. É o que revela um tatuador. Ele afirma que sua clientela é diversa, com ideologia de esquerda e de direita, e por essa razão não faz publicações ou declarações políticas. Para o profissional, seu nome passou a circular por ser preto e gay, encaixando-se em estereótipo visado por extremistas.
"Eu fico incomodado com esse ódio gratuito e, mais do que isso, a gente se sente vulnerável porque não dá para saber até onde uma pessoa iria para provar que o lado político dela é o certo ou melhor que o seu", desabafa o tatuador, que teve o nome incluído na lista de 2022 e também na de 2026.
Uma advogada da Região Serrana do Estado contou que também se absteve de manifestações, mas acredita que teve o nome associado à esquerda pelo posicionamento de familiares próximos. Mesmo com clientes bolsonaristas, isso nunca havia sido problema até a publicação da lista.
Ela começou a perder seguidores na internet após a listagem passar a circular e, embora ressalte que não é blogueira, está preocupada com os reflexos no seu trabalho.
"Não tenho muitos seguidores, só que, até a eleição, não havia perdido ninguém. Mas, depois da lista, já foram uns 20", pontuou a profissional, observando que, por atuar em cidade pequena, essa movimentação que parece mínima pode ter repercussão na sua atividade.
A advogada revela que as manifestações de bolsonaristas no município estão muito agressivas, sendo estimuladas por algumas lideranças partidárias. Até uma antiga amiga fez postagem em que ela se sentiu atacada. "Estou deprimida com o que está acontecendo", lamentou.
Em Cachoeiro de Itapemirim, no Sul do Estado, o boicote também foi direcionado a algumas igrejas, o que sugere que os fiéis deveriam deixar de frequentar as celebrações.
Outras pessoas e empresas afetadas por terem o nome ligado a um posicionamento político de esquerda resolveram responder de forma pública, como a Amabilis, em que os donos destacaram que nunca se alinharam a nenhuma corrente política e que o compromisso da empresa é com os clientes, colaboradores e a qualidade de seus produtos.
Por: A Gazeta
