Partido pró-Putin vence eleições parlamentares da Rússia
Rússia Unida lidera com 57,8% dos votos e garante maioria das cadeiras, consolidando, mais uma vez, o domínio do presidente russo
O partido Rússia Unida venceu com facilidade as eleições parlamentares russas – um pleito sob controle rígido –, com o presidente Vladimir Putin prestes a consolidar, mais uma vez, seu domínio sobre a política interna.
A apuração final dos votos só será concluída formalmente após 25 de setembro, mas, segundo dados iniciais da Comissão Eleitoral Central, o partido Rússia Unida, que apoia Putin, lidera com 57,8% dos votos, com mais de 95% das cédulas já processadas.
A votação ocorreu no momento em que Kiev lançava um de seus maiores ataques contra Moscou, entre a noite de sábado e o domingo, último dia do pleito de três dias.
Mais de 1.900 drones foram lançados, deixando pelo menos três mortos e danificando uma importante refinaria de petróleo.
Embora o resultado da eleição não estivesse em dúvida, a participação dos eleitores poderia ser vista como um teste de apoio à guerra na Ucrânia.
A comissão informou que o índice de comparecimento em toda a Rússia ultrapassou 59%, um novo recorde para eleições parlamentares.
Se confirmado, o resultado garantirá ao partido Rússia Unida 355 das 450 cadeiras na Duma, a câmara baixa do Parlamento russo.
Esse é o maior número de cadeiras que o partido já conquistou e 31 a mais do que obteve na eleição anterior, em 2021 — antes da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia —, quando o Rússia Unida conquistou 324 assentos.
Putin não é membro do partido, embora tenha atuado como seu líder entre 2008 e 2012.
Como presidente em exercício, Putin não constava na cédula eleitoral.
Ele só disputará uma nova eleição em 2030, tendo vencido o pleito presidencial mais recente, em 2024, com pouco menos de 88,5% dos votos.
Sem oposição real
Praticamente não existe oposição significativa na Rússia, com críticos sendo impedidos de atuar, presos ou exilados no exterior.
Segundo o OVD-Info, grupo independente de monitoramento de direitos humanos, mais de 2 mil pessoas estão atualmente presas por motivos políticos.
O único partido registrado na Rússia que se opõe à guerra, o Yabloko — "Maçã", em russo —, teve permissão para participar por um breve período antes de ser impedido pela Suprema Corte, no mês passado, de concorrer nas eleições federais por lista partidária.
Alguns candidatos individuais do partido Yabloko tiveram permissão para concorrer em distritos locais de mandato uninominal, apesar de a Suprema Corte ter vetado a principal lista nacional do partido.
No entanto, esses candidatos enfrentaram restrições e pressões significativas.
Dois dos vice-líderes do partido foram presos recentemente sob acusações relacionadas às suas posições contrárias à guerra e a postagens em redes sociais.
Nenhum candidato do Yabloko foi eleito, segundo os resultados preliminares anunciados pela comissão eleitoral.
O Yabloko informou no sábado (19) que um de seus observadores eleitorais "perdeu a consciência" enquanto era detido em uma seção eleitoral em São Petersburgo.
O partido relatou também que vários outros observadores da legenda foram impedidos de acessar seções eleitorais em outras localidades.
É provável que o resultado da eleição seja utilizado pelo Kremlin para reivindicar um mandato mais forte, argumentando que ele demonstra o apoio dos russos a Putin e àquilo que o Kremlin denomina "operação militar especial" na Ucrânia.
Antes da votação, Putin sinalizou, em um discurso televisionado à nação, que os resultados eleitorais mostrariam os russos unidos em torno do Exército.
“Sua escolha e determinação demonstrarão, mais uma vez, que milhões de pessoas apoiam nossos combatentes e que estamos juntos, unidos por valores compartilhados, por nossa memória histórica e pelo amor à nossa Pátria”, disse Putin.
Mais do que nos resultados em si, é provável que os observadores analisem a taxa de participação como um indicador de como os russos veem a guerra e a trajetória política da Rússia.
Questões sobre votação eletrônica
As urnas fecharam no domingo (20), após três dias de votação nos 11 fusos horários da Rússia e nas embaixadas e consulados russos no exterior.
Pessoas que vivem em áreas da Ucrânia atualmente ocupadas pela Rússia também foram chamadas a votar, com a criação de novos distritos eleitorais para as partes das regiões de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia controladas por Moscou.
A Ucrânia rejeitou as eleições realizadas em seu território, classificando-as como uma "farsa".
A UE (União Europeia) condenou a Rússia pela realização do que chamou de "eleições de fachada" nos territórios ocupados e afirmou que sancionaria aqueles que as viabilizaram.
“As chamadas eleições para a Duma marcaram mais um grande revés para a democracia russa. O resultado nunca esteve em dúvida. O Kremlin silenciou a dissidência, barrou o único partido registrado que se opunha à sua guerra na Ucrânia e impediu a presença de observadores eleitorais internacionais”, afirmou em comunicado Kaja Kallas, representante de Relações Exteriores da UE.
Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Noruega e Reino Unido emitiram uma declaração conjunta condenando a votação em áreas ocupadas da Ucrânia, afirmando que ela violou a soberania ucraniana.
Enquanto as eleições ocorriam, a Rússia continuava a atacar sua vizinha.
Segundo Kiev, Moscou lançou centenas de drones e diversos mísseis contra cidades ucranianas durante o período eleitoral.
Após estrear a opção durante a eleição anterior, em 2021, a votação online e eletrônica foi amplamente disponibilizada — e incentivada — desta vez.
Moscou chegou a oferecer aos moradores incentivos na forma de pontos que podiam ser trocados por prêmios, caso optassem por votar eletronicamente em vez de usar a cédula de papel.
Alguns eleitores de Moscou relataram ao veículo de notícias independente russo SotaVision que não receberam cédulas de papel devido a "falhas técnicas" e foram incentivados a votar em um terminal eletrônico.
"Fizeram isso de propósito, os desgraçados", disse um eleitor ao SotaVision.
Críticos há muito veem com desconfiança a implementação do voto eletrônico pelo Kremlin, argumentando que o sistema é menos transparente.
As autoridades russas rejeitam as críticas aos seus processos eleitorais e insistem que as eleições são realizadas em conformidade com a lei.
O próprio Putin optou por votar online; o Kremlin divulgou um vídeo mostrando-o navegando pelo sistema e registrando seu voto.
A agência de notícias estatal russa TASS relatou interrupções e falhas no sistema de votação eletrônica em Moscou entre sexta-feira e sábado, citando a presidente da Comissão Eleitoral Central, Ella Pamfilova, segundo a qual o problema foi causado por um ataque "de grande escala e alta intensidade".
Durante as eleições, foram registradas mais de 3 mil DDoS (ondas de ataques de negação de serviço distribuído) contra a infraestrutura eleitoral, segundo Pamfilova.
Em 10 regiões, 74 edifícios que abrigavam comissões eleitorais foram danificados ou destruídos durante os dias de votação, disse Pamfilova.
O sistema de votação eletrônica remota sofreu 135 ataques; as redes da Rostelecom, 420; e a infraestrutura de governo eletrônico, quase 2 mil, informou a comissão.
Por: CNN Brasil

