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Polos da direita e da esquerda derrubam partidos tradicionais na Alemanha

Eleições estaduais dão vitória para AfD em Mecklemburgo e para A Esquerda em Berlim, em derrotas do governo federal
22/09/2026 às 10h19
Polos da direita e da esquerda derrubam partidos tradicionais na Alemanha

A vitória da Alternativa para a Alemanha (AfD) em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental é mais um sinal de que o sistema partidário alemão atravessa uma transformação profunda.

A legenda de extrema direita obteve 38,2% dos votos, contra 35,5% do Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda. O dado mais impressionante, porém, é o resultado da União Democrata Cristã (CDU), do chanceler Friedrich Merz: apenas 4,9%, abaixo da cláusula de barreira, ficando fora do Parlamento estadual. Em 2021, a CDU havia conseguido 13,3% no estado.

Trata-se de uma tendência. A AfD foi a mais votada na Turíngia em 2024, com 32,8%, e há duas semanas venceu na Saxônia-Anhalt com 43,8%, contra apenas 17,2% da CDU. Agora vence novamente no antigo território da Alemanha Oriental. Mesmo em Berlim, tradicional reduto de esquerda, alcançou 16,3%, seu melhor resultado na capital. Ao mesmo tempo, a CDU perdeu 9,5 pontos percentuais e caiu para 18,8%.

Mecklemburgo representa uma derrota muito maior para a CDU do que para o SPD, embora estejam juntos em coalizão no governo federal. O SPD caiu de 39,6% em 2021 para 35,5%, mas permaneceu a apenas 2,7 pontos da AfD. A CDU desabou de 13,3% para 4,9%. Manuela Schwesig, governadora social-democrata, preservou uma base eleitoral capaz de competir com a AfD. Merz, ao contrário, vê eleitores conservadores trocar a CDU pela AfD.

O partido ultranacionalista não cresce apenas como voto de protesto contra o governo. Para parte do eleitorado conservador, surge como alternativa mais nítida à CDU em temas como imigração, valores familiares, energia, apoio à Ucrânia e proximidade com a Rússia. A CDU continua recusando qualquer cooperação com a AfD, no chamado “muro corta-fogo", mas quanto mais eleitores migram de uma para a outra, mais esse movimento se normaliza e potencialmente se acelera. O resultado não derruba Merz, mas enfraquece sua autoridade dentro do partido e aumenta as tensões com o SPD sobre as reformas econômicas e sociais.

O SPD, portanto, tem pouco a comemorar. Em Mecklemburgo os social-democratas demonstraram certa resiliência, mas em Berlim o partido obteve apenas 12,1%, uma queda de 6,3 pontos. Quem capturou o descontentamento da esquerda foi Die Linke (A Esquerda), que chegou a 25,7%, mais que dobrando seu resultado anterior e superando CDU, AfD, Verdes e SPD. Sua campanha explorou um tema concreto: habitação. Para 53% dos berlinenses, moradia é o principal problema local, e as pesquisas apontaram A Esquerda como a legenda mais capaz de enfrentá-lo.

AfD e A Esquerda crescem em polos ideológicos opostos, mas se alimentam de algumas das mesmas frustrações. A economia alemã passou anos praticamente estagnada, a indústria enfrenta a concorrência chinesa e custos elevados de energia, como resultado das sanções à Rússia, e há insegurança sobre empregos, aposentadorias e custo de vida. No Leste, permanece ainda a sensação de que a reunificação não produziu plena igualdade de oportunidades. A AfD combina esses sentimentos com imigração, soberania nacional e crítica ao apoio à Ucrânia. A Esquerda oferece outra abordagem: salários, desigualdade, aluguéis, concentração de riqueza e insuficiência do Estado social. CDU e SPD sofrem por serem identificados com o sistema que deveria resolver esses problemas.

A Esquerda se define como socialista democrática e seu programa fala em mudanças fundamentais nas relações de propriedade e poder. Defende impostos muito maiores sobre grandes fortunas, socialização de grandes empresas imobiliárias e, no longo prazo, uma arquitetura de segurança europeia que torne a Otan desnecessária, além de se opor ao envio de armas para zonas de guerra.

Ao mesmo tempo, participa há décadas do jogo parlamentar e já integrou governos em Berlim. Há correntes moderadas e radicais dentro do partido, e a própria classificação ideológica é objeto de debate na Alemanha.

O fenômeno mais importante destas eleições talvez seja justamente este: tanto à direita quanto à esquerda, uma parcela crescente do eleitorado está procurando alternativas aos dois partidos que organizaram a política alemã do pós-guerra.

 Por: CNN Brasil
 
 
 

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